quinta-feira, 10 de julho de 2008

O Peso da Vida

(exercício proposto por João Cunha, aluno do Curso de Formação para Escritores, baseado no filme 21 Gramas. Tema: o peso da vida. Tamanho: 10 linhas)

– O tiroteio nos atingiu, estamos perdendo combustível – informou o piloto. – A alternativa é jogar fora tudo que for excesso.

O casal não perdeu tempo e atirou malas e equipamentos ao mar.

– Sinto muito, mas ainda não dá. Talvez com 50 kg a menos...

Inconformado, o marido confirmou nos marcadores do helicóptero o diagnóstico do piloto. Então desanimou, tomado por uma culpa de 140 kg. Minha gordura matará todos nós, pensou. Cogitou pular, mas faltava coragem. Se ao menos nadasse como a esposa...

Foi quando ela passou o bebê para seu colo, beijando os dois com serenidade:

– Amo vocês – e jogou-se ao mar.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A Última Pílula

Não adiantava avisar:

– Cuidado, vó. Desse jeito, a senhora pode quebrar o pescoço.

Ela não ouvia. Separava as pílulas com o prazer de quem distribui dinheiro aos filhos. “Esta é para a memória, esta para a garganta, para o coração, o esôfago, fígado...”. Deixava-as todas enfileiradas, por ordem de localidade corpórea. Acreditava que, quanto mais próximo da boca estivesse o aparelho enfermo, mais rápido o medicamento fazia efeito.

Com tudo preparado, polegar e indicador pinçavam as bolinhas para deitá-las com requinte em língua esplêndida. Uma por vez. Só que o esmero terminava aí. De repente vinha um impulso desproporcional da cabeça, que ricocheteava para trás. O gole curto de água à temperatura ambiente lubrificava a garganta para a pílula seguinte.

– Vó, assim a senhora pode quebrar o pescoço. Não basta engolir?

Ela não escutava – e isso nada tinha a ver com o ouvido direito, quase surdo. “Assim desce mais fácil”, pensava com convicção. E dava um impulso atrás do outro transformando o cérebro num chocalho. Eu ficava de prontidão, sempre temendo pelo pior. Só não imaginava que o desfecho pudesse ser tão trágico.

Foi naquela tarde – para tristeza de filhos, netos e bisnetos – que o ritual das bolinhas se repetiu pela última vez. Após seguidos ricochetes, vovó chegava à pílula derradeira – a para unha encravada. Parece até que já esperava por algo, pois hesitou ao trazer o remédio à boca. Deve ter se lembrado de amores perdidos, de trabalhos não realizados, de viagens nunca feitas. A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

A bolinha já estava sobre a língua úmida, quando veio o impulso fatídico. De olhos fechados, vovó jogou a cabeça para trás com tamanha força que ela se desprendeu do pescoço e alçou vôo. Deu três voltas no ar e caiu pesada, ouvido surdo para cima. Sons não importavam mais, e os olhos ainda gritaram por socorro quando viram o corpo sem cabeça pela primeira e última vez. O respiro final jamais oxigenaria o tronco. Tampouco a última pílula atingiria a extremidade do membro mais distante. A unha encravada de vovó estava condenada a doer pela eternidade.

(Frases ou idéias semelhantes a obras já publicadas não são meras coincidências. Este é um exercício de plágio criativo, desenvolvido no Curso para Formação de Escritores)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sarau Cultural

É sábado, pessoal! Até lá!!!

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Impressão

A conversa se deu hoje, na hora do almoço. Meu irmão chato foi testemunha e me contou. Julguei merecedora de um destaque.

...

Com o cigarro à mão, a morena desabafava com a colega. “É muita pressão na minha vida. Pressão no trabalho, pressão no casamento, pressão na faculdade...”

É verdade, a moça tem razão, e presto minha solidariedade a ela. É muita pressão. Pressão atmosférica, arterial, venosa, osmótica, estática, hidrostática, dinâmica, capilar, de vapor, de degenerescência...

Vivemos marcados sob pressão. Sofremos depressão, opressão, repressão, supressão, compressão, descompressão, contrapressão... O coração petrifica, perdemos a liberdade e a expressão da face.

A desopressão só vem com a morte.

Por isso, moça preciosa e pressionada, não desanime. A vida é mesmo uma panela de pressão.

(texto inexpressivo, disponível para pré-impressão, impressão ou reimpressão, por impressora plana, rotativa, digital ou mesmo comum, daquelas que temos em casa com cartucho recarregável)


quarta-feira, 4 de junho de 2008

Arraiá da Nossa Casa

Galera, a festa junina da ABCD Nossa Casa é no sábado, 7 de junho.
Abraço a todos e até lá!

O quê: Arraiá da Nossa Casa
Quando: 07/06/2008 (sábado)
Horário: das 15h às 21h
Onde: Rua Dr. Paulo Vieira, 246 - Perdizes (perto da estação Vila Madalena)
Para quê: Para se divertir e ajudar as crianças da ABCD Nossa Casa
Entrada: Franca

Para quem quiser conhecer mais sobre a associação e seus projetos educacionais, acesse www.abcdnossacasa.org.br.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O Troco

Comprar pão todas as manhãs era um fardo. Marta não tinha folga nem nos finais de semana, mas aceitava sua responsabilidade só para não ouvir as reclamações do marido.

Mas aquele domingo era diferente, e ela saiu da cama mais cedo. Escovou os dentes e vestiu-se em silêncio. Antes de encostar a porta do quarto, lançou um olhar penetrante sobre Carlos, que roncava esparramado no colchão.

Tomou a rua decidida e, com passadas firmes, chegou em menos de 15 minutos à padaria. Não a de sempre, mas uma concorrente, para não ser reconhecida. Pediu quatro pãezinhos, pegou um litro de leite e foi direto ao caixa. Enquanto o atendente registrava os valores, acrescentou um chocolate às compras.

– São quatro reais e quarenta centavos – informou o rapaz.

Marta não hesitou. Tinha planejado tudo durante semanas. Enfiou a mão no bolso direito e tirou uma moeda.

Tão logo sentiu o peso do pagamento, o atendente recolheu a mão esquerda para perto dos olhos. Mas que diacho é isso? – pensou. A dona-de-casa percebeu a expressão descrente do rapaz, mas disfarçou com um bocejo.

Ele então reexaminou a moeda e concluiu: aquilo só podia ser falso.

– Já sei – sorriu com ar de inteligente. – É pegadinha, não é? Pronto, já descobri, pode chamar o cinegrafista.

– Pegadinha de quê, garoto? – retrucou a mulher.

– Senhora... – prosseguiu o rapaz. – Não tenho vocação para palhaço. Por favor, são quatro reais e quarenta centavos.

– Sim, eu já ouvi – disse Marta. – Pegue logo esse dinheiro e me dê o troco. Vamos rápido. Meu marido vai surtar caso eu não traga logo o café da manhã.

O rapaz observou novamente o tal dinheiro – bem a contragosto. Ao perceber o crescimento da fila, ficou impaciente. Entregou a moeda à cliente e disse nervoso:

– Serei obrigado a chamar o seu Roberto, minha senhora.

Ela concordou:

– Ótimo. Não quero mais perder tempo com você.

Os fregueses já começavam a reclamar quando Roberto, dono do estabelecimento, chegou acompanhado do garoto. Ciente do impasse, foi direto ao assunto.

– Bom dia, senhora. Posso ver a moeda? – perguntou.

– Claro, aqui está. Espero que resolvamos isso rápido, meu marido aguarda por mim.

Roberto segurou o objeto e ficou impressionado. Maior que uma moeda comum e bem mais pesada, a peça trazia a figura de um índio observando a chegada da caravela. Terra e mar estavam representados por um adorno de penas e uma rosa dos ventos. Acima, havia a inscrição reveladora: “5 REAIS”. O dono nem precisou examinar o outro lado da peça.

– Jonas, aceite – ordenou.

– Mas, senhor, isso não é dinheiro – retrucou o atendente.

– Tanto faz. É de prata, veja. Deve valer até mais que cinco reais.

O rapaz concordou, enquanto via seu reflexo deprimido na moeda. Quis guardá-la na caixa registradora, mas o gerente preferiu levá-la consigo. Ainda irritado com a confusão, Jonas entregou sessenta centavos à dona-de-casa, desejando que ela nunca mais aparecesse por ali.

Marta recebeu o troco com um sorriso disfarçado. Seu olhar acentuava a satisfação que sentia. Já podia até imaginar o marido mastigando o pãozinho comprado com uma moeda rara de sua coleção. É capaz de ele engasgar, ironizou. Aquela maldita coleção de moedas. Bem-feito! Quem sabe agora esse infeliz me dá mais atenção.

Confira a foto da moeda no site do Banco Central do Brasil:
http://www.bcb.gov.br/htms/Mecir/mcomemor/MC500anos.asp?idpai=MOEDAREL

Conheça também o livro "Histórias que o Dinheiro Conta", de André Cintra e Renato Torelli:
http://www.lumuseditora.com.br/index.php?p=17

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Alrelho e Cecília

O jovem Alrelho se apaixonou por uma mulher mais culta. Só que, ao se declarar, pôs tudo a perder.

Confiram a canção “Alrelho e Cecília”, de Luiz Eduardo e Renato Torelli, gravada em 2001 pela banda Reverso Invertido. Divirtam-se, emocionem-se com o fim de um grande amor e tomem cuidado para jamais cometerem os mesmos erros de nosso protagonista.

Escute aqui a canção Alrelho e Cecília:
http://www.lumuseditora.com.br/wp-content/uploads/outside/Alrelho_e_Cecilia.wma

Alrelho e Cecília
(Luiz Eduardo/Renato Torelli)

Fazem três anos,
Foi há muito tempo atrás,
E eu ainda não se esqueci.
Eu vi ela,
Em frente do jardim,
Fiquei fora de si.
Haviam sonhos na cabeça da
menina,
Meia tímida sorriu pra mim.
Subi pra cima os degrais correndo,
Tinha chego nela enfim.

Hei, peteca!
Espera aí pra mim lhe conhecer.
Tu é muito linda
A nível de beleza,
Tenho certeza que quero você . . .
E onde vai tão bela assim? Será o fim!
Se eu lhe perder e não poder lhe rever
Outra vez! 1 – 2 – 3


Fazem três anos,
Foi há muito tempo atrás,
Lhe amava tanto porém lhe perdi.
Nunca mais vi ela,
Não me quis por causa que
A minha fala era meia ruim.
Que por mim ser de menor, com inguinorância maior,
Não haviam chances de me dizer sim.
Não fica triste, Alrelho,
Um dia desses o futuro vai vim.


Hei, Cecília!
Passou três anos, não lhe esqueci.
Meu português está mais melhor que o vosso,
A grosso modo falo até latim.
E pra lhe provar que sei escrever
Vem vim ler
A carta que lhe redigi pra você:


São Paulo, 1 de dezembro de 2000.

Sessília,

A nível de amor, eu lhe amo mais que ontem e menas vezes que todos os amanhãs.
Eu sei que tu tá meia confusa, mas me use e abusa! Namore comigo! Seje pra sempre minha amada !!!
Esteje meio dia e meio em frente da padaria para conversar. Poderemos comprar umas duzentas gramas de mortandela para mim fazê um lanche pra você quando chegarmos em casa. Tomaremos um chopps . . . Estará proibido a entrada de outras pessoas que não seje nós dois. Deixaremos o resto pra depois que decidir nossos caminho.
Com carinho de quem lhe prefere mais do que tudo,

Alrelho

(antes fosse mudo)

domingo, 4 de maio de 2008

Pintando o mundo

A caixinha de lápis de cor foi o presente perfeito para o seu sexto aniversário. Era a ferramenta que Marquinhos precisava para recriar o mundo ao seu jeito.


No dia seguinte, deu início à grande obra, pintando o sol de azul real e o céu de verde. A partir daquele instante, o poente começaria bandeira e terminaria musgo.

Já as nuvens ficaram lilás. E o arco-íris ia do preto ao branco, com tonalidades de cinza pelo interior.

O mar se transformou em amarelo-ouro, com montanhas alaranjadas. A brisa soprava vermelho e as matas rosearam, com rosas e todas as demais flores em verde, para combinarem com o céu.

Ao final do dia, Marquinhos olhou o novo mundo satisfeito. O serviço estava completo e perfeito.

Seu sorriso aumentou ainda mais quando ouviu o bater da porta. Era seu pai, que acabava de chegar do trabalho. Antes que Arnaldo pudesse afrouxar a gravata, Marquinhos pulou em seus braços, ávido por mostrar a obra-prima. O pai perdeu a cor:

– Credo, filho, que horror. Você pintou tudo errado. Benhêêê, temos que levar o menino ao médico. Talvez ele seja daltônico.

Marquinhos murchou.

– Eu só queria fazer diferente, papai.

A decepção do filho sensibilizou Arnaldo. Não precisava ter sido tão duro, pensou. Então se ajoelhou na altura de Marquinhos, pôs as mãos em seus ombros e, com serenidade, explicou:

Não pode, filho. O mundo é do jeito que é. Não podemos mudá-lo. Entendeu?

Com a cabeça, Marquinhos concordou. Tinha apenas seis anos e já era adulto.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Reverso Musical

Por se tratar de um blog experimental, Reverso Inverso também terá uma seção voltada para música, com dicas e comentários. O critério é simples e bem arbitrário: o gosto do autor deste blog, é claro.

Dessa forma, compositores como Noel Rosa, Raul Seixas, Zé Geraldo, Renato Russo, Pixinguinha e Celso Viáfora devem ter preferência. Em momentos de heresia, canções com participação de Renato Torelli também ganharão vez. Ainda haverá destaque para trabalhos atuais, como “Infinito de Pé”, de André Abujamra. A letra dessa música é daquelas que a gente ouve, ri e torce para que não acabe nunca.




O Infinito de Pé
André Abujamra

O infinito de pé são dois biscoitos
O infinito de pé é o número oito
O infinito de pé dois planetas colados
O infinito deitado um óculos quebrado

O infinito de pé duas bolas de sorvete
Um casal de namorado na moto com capacete
Boneco de neve, dois vinhos na adega
Farol de milha de noite quase cega

O infinito deitado olhos de coruja
Dois seres humanos fazendo amor
O infinito de pé é um autorama
Duas pulgas malabaristas no meu cobertor

O infinito deitado cano duplo de espingarda
São os raios de sol nos olhos da namorada
Dois salva-vidas à devida no oceano
É a linda cauda da baleia afundando

Oitocentos anos infinito lado a lado
Só que um está de pé e o outro deitado
Buraquinhos do nariz, as asas da borboleta
Dois irmãos gêmeos no carrinho de mãos dadas com chupeta

O infinito tá de pé o infinito tá (4x)

O infinito deitado janelinha de avião
É o símbolo da paz passarinho a minha mão
É o laço do cadarço para o tênis amarrar
É o beijo na sua boca para o amor alimentar

Ouro sem u e sem r
O infinito é o bigode do francês Pierre
Oco sem c ovo sem v
O infinito é o amor que eu sinto por você

Dois mil e um sem o dois e sem o um
O infinito é uma dupla de sushi de atum
É o reflexo do sol no mar
É a sinuca do bilhar

O infinito de pé é um brinde na taça
Dois buracos na cueca devorados pela traça
Os pneus da bicicleta subindo a ladeira
São os seios da Brigite pra fora da banheira

Dois cocos, duas laranjas, bola de gude bola de meia
O infinito é Jesus Cristo repartindo o pão para os apóstolos na Santa Ceia
Nem todo infinito tem forma pra mim
Einstein Rodchenko Picasso e Tom Jobim
O infinito tá de pé o infinito tá (4x)

O infinito é infinito
O infinito é o amor
O infinito nunca acaba porque nunca começou (2x)

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Priest in Riverman



“Nuvens negras circundam o povoado de Riverman. O demônio Armand está infiltrado na cidade e prepara a ressurreição do mestre, o anjo caído Temozarela. Para isso, Armand e seus Zumbis devem exterminar a população local, sacrificando inocentes sempre que anoitece.
O pobre Xerife Mitchum já não sabe mais como evitar tantos crimes. Ele também perdeu o controle sobre os discípulos da Senhora Fergusson, que, toda manhã, enforcam um suspeito na busca pelos verdadeiros culpados.
A chance de sobrevivência do povoado está na ira do ex-padre Ivan Isaacs. Mas ele precisa agir rápido, antes que a pior face do mal triunfe – e a população de Riverman seja dizimada.”


Priest in Riverman é um jogo de raciocínio baseado no manhwa PRIEST – quadrinho coreano de Hyung Min-Woo. A Lumus Editora promove a brincadeira nos eventos de que participa, e a rapaziada quebra a cabeça bolando estratégias de sobrevivência. Para quem curte jogos dinâmicos e inteligentes, é diversão garantida.



Mais fotos dos eventos e do jogo no link